Maria Thereza Reis
A mesa “Where's my lenacapavir? How to break monopolies and end the HIV epidemic” (Onde está meu lenacapavir? Como quebrar monopólios e acabar com a epidemia de HIV, em tradução livre) tratou da luta pelo acesso a medicamentos.
Medicamentos de longa duração, especialmente o lenacapavir, profilaxia Pré-exposição (PrEP) injetável com uma dose a cada seis meses, são inovações científicas que contribuem para a adesão. Com preços exorbitantes, não há acesso.
O lenacapavir, produzido pela farmacêutica Gilead, apresentou quase 100% de eficácia em estudos clínicos. Os estudos foram realizados em países como Brasil, Argentina, Peru e México, por exemplo. Entretanto, esses países ficaram fora de acordo de distribuição a preço acessível.
Durante a Aids 2026, que acontece no Rio de Janeiro entre os dias 26 e 31, aconteceram manifestações sobre a questão do acesso a medicamentos, quebra de patentes e financiamento.
Na mesa, Antônio Flores, do Médicos sem Fronteiras, falou sobre as facilidades de uso dos medicamentos de longa duração e do não acesso às populações mais vulneráveis. “A ciência teve sucesso, a arquitetura do acesso, não”, afirmou.
Para Veriano Terto, da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia), o papel do ativismo é fundamental para o acesso. “Queremos acesso universal. O Brasil luta por medicação, por justiça social, por equidade e por direitos humanos”, disse.
Eloan Pinheiro afirmou que “a saúde não pode ser comercializável” e que as indústrias farmacêuticas só estão interessadas em garantir o lucro. A cientista relembrou batalhas anteriores por quebra de patentes, incluindo a luta de pessoas que vivem com HIV/aids no começo da epidemia no Brasil. A cientista afirmou que é possível produzir o lenacapavir no Brasil por engenharia reversa.
Estudos do Grupo de Trabalho sobre Propriedade Intelectual (GTPI) mostram que é possível e viável produzir o lenacapavir no Brasil. De acordo com material distribuído pelo GTPI, “o Brasil possui um parque industrial de síntese orgânica fina e grupos de pesquisa com capacidade técnica para desenvolver e realizar a produção do IFA (Insumo Farmacêutico Ativo) do lenacapavir”, e com menor custo.
Luciana Lopes, do Departamento de HIV/aids, tuberculose, hepatites virais e infecções sexualmente transmissíveis (Dathi), do Ministério da Saúde, ressaltou a importância da saúde como direito, e dos 30 anos da lei 9313, que garante a distribuição gratuita de medicamentos no SUS. Luciana Lopes também lembrou do recente acordo para incorporação do medicamento cabotegravir no SUS. A proposta foi enviada à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (Conitec), conforme anunciou Alexandre Padilha, Ministro da Saúde, na abertura da Aids 2026. O cabotegravir, também é medicamento injetável de longa duração, com uma injeção a cada dois meses.
Como pontuou Eloan Pinheiro, “os pacientes querem a cura”. O material distribuído pelo GTPI, no escopo da luta pela produção pública de medicamentos no Brasil e do uso das flexibilidades de propriedade intelectual, afirma que “a barreira não é técnica, é política”.
Ao final da mesa, os participantes saíram pelos corredores do Riocentro, onde acontece o evento, com bandeiras e gritos de guerra, e fizeram nova manifestação.